A história da minha avó, de Budapeste até aqui, contada por mim.

A história da minha avó começa em Budapeste, na Hungria. Ela era a filha mais velha do Janos Justus e da Lidia, e ainda era bem pequena quando os pais decidiram que não dava mais para ficar. Depois da guerra, o país tinha sido ocupado pelos soviéticos, e o meu bisavô, que era engenheiro e já tinha uma construtora enorme, percebeu que a família precisava ir embora.
Eles fugiram escondidos debaixo da lona de um caminhão: o Janos, a Lidia, a mãe dela, Helena, e a vovó Julia, pequenininha. A combinação para a viagem foi feita com metade de uma página de revista. A outra metade ficava com quem ia ajudar, e era assim que um sabia que podia confiar no outro.
De Viena seguiram para Paris. Os Estados Unidos estavam fechados para imigrantes, e ninguém sabia muito bem para onde ir. Até que, perto do consulado do Brasil, alguém gritou: “Engenheiros!”. O Brasil estava chamando engenheiros, e o meu bisavô levantou a mão.
Foi assim, por causa de um grito na porta de um consulado, que a minha família veio parar no Brasil.
Eles atravessaram o oceano num navio de carga e chegaram ao Rio de Janeiro sem nada. O homem que tinha tido uma das maiores construtoras da Hungria começou aqui consertando geladeiras.
Mas ele não desistiu. Em 1952, já em São Paulo, montou uma construtora que cresceu muito. Foi aqui que a vovó cresceu, e foi aqui que nasceram os irmãos dela, a Catharina e o Roberto. A menina que tinha chegado de navio virou brasileira, paulistana, e a irmã mais velha de uma família que aprendeu a recomeçar.
Eu penso muito nisso: tudo o que a gente tem hoje começou com uma família corajosa que deixou tudo para trás.
A vovó casou com o vovô Eddy, e foi deles que veio a nossa família: eles tiveram o meu pai, o Alberto, a tia Suzana e a tia Carolina. Eu não cheguei a conhecer o vovô Eddy. Ele já tinha partido quando eu nasci, e sei que ele era muito bonito, esportista e divertido.
A vovó estudou na Graded, fala inglês e húngaro fluente, e foi campeã nacional de bridge. É uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço: entende de política, de religião e de tantos outros assuntos. E eu amo ouvir as histórias dela.

Eu não lembro de um tempo sem ela. A vovó estava lá desde o primeiro dia: me pegando no colo, me dando banho, me levando para a piscina, me dando comida na cama, rindo comigo. Ela é a mulher mais chique e linda que eu conheço.



Fui crescendo, e ela continuou do meu lado em todas as fases. A vovó está sempre presente: nas festas juninas, nas apresentações da escola, nos aniversários e nos dias comuns, que no fim são os melhores. Não esqueço quando ela foi contar suas histórias para os meus amigos da escola. Eu amo que ela está sempre comigo.

A casa da vovó é a minha segunda casa. Lá tem um quarto só meu. Aos domingos ela pede pizza, e sempre da Camelo, a minha preferida. E quando tem strogonoff ou torta de morango… eu amo! Ela sabe mesmo como me agradar! E eu sei que ela fica feliz quando dou chocolate pra ela, principalmente Nhá Benta.
Eu adoro que minha escola fica pertinho da casa dela, não vejo a hora de ficar mais velha e poder ir e voltar a pé.








Obrigada por ser a menina corajosa que atravessou o mundo, e a mulher que construiu a nossa família. Obrigada por cada colo, cada abraço e cada risada, pelo meu quarto na sua casa, pelos domingos de pizza e por todas as histórias que você me conta. Tenho muito orgulho de ser sua neta.